terça-feira, 7 de abril de 2026

TIAGO ALBERIONE um santo para os nossos dias



(D. Valdir J. de Castro)

EM CRISTO E NA IGREJA,  PARA CHEGAR A TODOS

Pode-se, perguntar: deve-se chegar especificamente a quem com o apostolado da comunicação?

O objetivo da evangelização com a comunicação é chegar a todos, porém considerando a humanidade na situação concreta em que vive.

Olhando para a realidade do seu tempo, Pe. Alberione afirmava: “É precisamente neste século que devemos viver e agir. Devemos ser deste século, ou “A EVANGELIZAÇÃO COM A COMUNICAÇÃO, NO PROJETO IDEALIZADO POR PE. ALBERIONE, ENCONTRA SUA INSPIRAÇÃO PRIMEIRA NO APÓSTOLO PAULO.” seja: tentar entender as necessidades e atendê-las”. E constatava: “Isso é fácil, pois Deus nos deu temperamento, costumes em relação ao nosso tempo, e não aos tempos passados” (VM 375).

É preciso chegar a todos com o Evangelho, com especial predileção pelos mais necessitados, ajudando-os a conquistar não somente o pão material, mas também o pão da instrução e da verdade. Para isso, insistia Pe. Alberione, é preciso utilizar uma linguagem “pastoral”, termo que, para ele, significava justamente “a grande arte de dar Deus às pessoas e de dar as pessoas a Deus em Jesus Cristo” (VM 1205).

É necessário, então, usar de criatividade, produzir conteúdos compreensíveis e acessíveis, com linguagens adequadas às crianças, aos jovens  e adultos.

Outro segmento da sociedade considerado prioritário na mente de Pe. Alberione era o dos intelectuais. Ele era convicto de que, se queremos uma sociedade melhor, com uma “mentalidade nova”, é necessário levar o Evangelho aos intelectuais e aos que formam opinião com os meios de comunicação. “Se conquistar intelectuais, você pesca com a rede, não apenas com o anzol”, dizia o fundador da Família Paulina (VM 1329).

 Ele via na comunicação instrumental um canal imprescindível para criar relações e gerar diálogo com aqueles com responsabilidade na formação da consciência das pessoas, pois são eles que influenciarão as decisões às vezes fundamentais para o destino de uma comunidade, de um povo e até mesmo de um país.

OS DESAFIOS  DA COMUNICAÇÃO HOJE

Desde que Pe. Alberione deixou este mundo, a comunicação tem passado por profundas transformações – especialmente com a chegada das técnicas digitais –, assim como a Igreja, que, nas últimas décadas, tem procurado atualizar seu discurso e renovar sua prática, no que se refere a esse campo de evangelização.

Certamente, Pe. Alberione não imaginava a revolução que ocorreria no campo das técnicas comunicacionais, tampouco na realidade da comunicação como a vemos hoje configurada. Mas,  estaria aberto às mudanças ocorridas nesse âmbito, como podemos deduzir das suas palavras, quando afirma: “O mundo compreender-nos-á se utilizarmos os meios atuais para nos comunicarmos com ele. Portanto, não pense em dizer: ‘sempre fizemos isso’. Ao longo dos anos, precisamos nos adaptar às condições da época em que vivemos” (VM 347).

 A atualidade de Pe. Alberione, a qual nos interpela como Igreja, reside na sua capacidade de estar atento às mudanças que a comunicação, mediada pela técnica, provoca na sociedade e, consequentemente, de buscar respostas concretas ao que se refere à ação evangelizadora. O empenho em adaptar a evangelização às condições da época em que vivia leva-nos a refletir sobre a atual realidade da comunicação e responder aos desafios que ela impõe.

A provocação a adaptar a Igreja à realidade da comunicação nos leva a considerar ao menos dois aspectos, entre muitos outros, que estão interligados e não podem ser ignorados, nos dias atuais, quando o tema é a evangelização: a compreensão da comunicação como “cultura” e a realidade do ambiente  digital.

A comunicação como “cultura”

 Antes de tudo, é preciso compreender a comunicação, mediada pela técnica, não somente como um conjunto de instrumentos que propagam informações e conteúdos, mas também como parte integrante de uma cultura que interfere diretamente na vida das pessoas.

Essa visão de comunicação já era presente, quando, referindo-se ao uso dos instrumentos técnicos na evangelização, advertia que não é suficiente usá-los para difundir a mensagem cristã e o magistério da Igreja, mas é necessário integrar a mensagem nesta “nova cultura”, criada pelas modernas comunicações. É um problema complexo, pois esta cultura nasce menos dos conteúdos do que do próprio fato de existirem novos modos de comunicar com novas linguagens, novas técnicas, novas atitudes psicológicas (RM 37).

A visão da comunicação como “cultura” é fundamental quando pensamos na evangelização. O Concílio Vaticano II já havia debatido sobre o perigo de criar distância entre cultura e Evangelho.

 De fato, parar no tempo ou romper o diálogo com a cultura sempre foram grandes tentações para a Igreja, como reconheceu o papa São Paulo VI, o que o levou a afirmar que “a ruptura entre Evangelho e cultura é, sem dúvida, o drama de nossa época, como o foi de outras” (EN 20).

O perigo da fossilização, mantendo-se em esquemas pastorais antigos, que separam a Igreja da cultura e, consequentemente, distanciam a mensagem do Evangelho das pessoas, é advertência constante também do papa Francisco. Daí o motivo de ele insistir na necessidade de a Igreja entrar na dinâmica de uma pastoral em chave missionária, que rompa com a autorreferencialidade.

Insiste sobre a urgência de a Igreja abandonar o critério pastoral do “fez-se sempre assim” e sobre a necessidade de assumir uma pastoral ousada e criativa na tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das comunidades (EG 33). Obviamente, “se pretendemos colocar tudo em chave missionária, isso se aplica também à maneira de comunicar a mensagem” (EG 34). 5.2.

O ambiente digital

Uma evangelização que deseje levar em conta os tempos atuais não pode prescindir do ambiente digital. Não se trata apenas de “usar” a internet, como se fosse mero instrumento de comunicação, mas sobretudo de viver na cultura digitalizada que influencia fortemente a noção de tempo e espaço, a forma de as pessoas se relacionarem entre si e com o mundo, a maneira de aprender, de informar-se, de manifestar-se politicamente, de consumir, de rezar etc.

O ambiente digital faz-nos ver que a forma linear de transmissão do anúncio do Evangelho – própria dos instrumentos de comunicação tradicionais, como a imprensa, o rádio, a televisão etc. – está passando por profunda “crise”; isto é, a comunicação hierárquica, que transmite a mensagem a partir de um centro para uma periferia, vai sendo substituída sempre mais, com o avanço das redes, por  uma comunicação interativa e participativa.

Já não se trata simplesmente de “usar instrumentos”, mas de “habitar” um ambiente onde bilhões de pessoas circulam diariamente. O espaço digital torna-se imprescindível para a evangelização; nele somos chamados, como Igreja, não só a oferecer conteúdos religiosos ou mensagens com valores cristãos, mas também a dar testemunho com base em um estilo cristão de comportamento. É nessa linha que se insere o papa Bento XVI quando admite que “existe um estilo cristão de presença também no mundo digital que se traduz numa forma de comunicação honesta e aberta, responsável e respeitadora do outro” (BENTO XVI, 2011).

Nestes tempos de comunicação em rede, é imprescindível ter presente, como afirma o papa Francisco, que “não é a tecnologia que determina se a comunicação é autêntica ou não, mas o coração do homem e sua capacidade de fazer bom uso dos meios ao seu dispor” (FRANCISCO, 2016).

 É verdade que o mundo digital pode favorecer as relações e promover o bem da sociedade, mas, como já manifestou tantas vezes Francisco, não pode obviamente substituir a presença física e o contato direto, tão importantes nas relações humanas e na vida das comunidades.

Um justo equilíbrio é indispensável. Enfim, a evangelização no campo da comunicação não se reduz a utilizar os instrumentos técnicos (analógicos ou digitais) ou simplesmente a habitar o ambiente digital, mas envolve favorecer, com esses recursos, a comunicação mesma, que, no seu sentido mais profundo, deve gerar proximidade, partilha, escuta, acolhimento, ajuda mútua; estimular a verdade, motivar atitudes e comportamentos genuinamente evangélicos.

CONCLUSÃO

Certamente, como buscamos mostrar nesta reflexão, a melhor forma de fazer memória do Bem-aventurado Tiago Alberione, neste ano em que celebramos o cinquentenário de sua partida para junto de Deus, é trazer para a atualidade seu pensamento e exemplo de vida, de modo particular suas intuições e sua contribuição para a evangelização no campo da comunicação. Segundo Pe. Alberione, não basta o púlpito tradicional para evangelizar, ainda que este seja carregado de significado e importância. Já na primeira metade do século XX, o fundador da Família Paulina estava convencido da necessidade de assumir a realidade da comunicação e dos recursos técnicos ligados a esse campo, ou seja, de utilizar os “púlpitos modernos”, ao lado da comunicação no templo; todavia, não como simples instrumentos de amplificação da mensagem, mas como forma concreta de “encarnar” o Evangelho na cultura atual, por intermédio das linguagens escrita, sonora  e imagética.

Esse era o grande sonho de Pe. Alberione, o qual, por meio da Família Paulina, buscou concretizar. Um projeto que nasceu, porém, não do simples esforço pessoal. Como ele mesmo diria, tudo foi fruto – não obstante suas limitações – da comunhão com Deus, a qual o levou a caminhar com a Igreja e com a sociedade do seu tempo, a deixar-se iluminar pela Eucaristia, a “pensar e nutrir--se de cada frase do Evangelho, segundo o espírito de São Paulo” (AD 95).

Na sua relação com Jesus – o qual ensinou seus filhos e filhas espirituais a invocar como “Mestre, Caminho, Verdade e Vida” –, na devoção a Maria Rainha dos Apóstolos e na inspiração apostólica em São Paulo, ele encontrou luzes e fundamentos para sua santificação.

De fato, sua beatificação, em 2003, por São João Paulo II, foi eloquente sinal do reconhecimento da Igreja de que é possível santificar-se, dedicando-se à evangelização no campo da comunicação moderna. Nesse sentido, o Bem-aventurado Tiago Alberione é um santo para nossos dias, uma referência de santidade, não somente para os membros da Família Paulina, mas também para todos os que acreditam na força transformadora da comunicação e se dedicam, na Igreja, a essa fascinante e desafiadora  pastoral.

 

A FAMÍLIA PAULINA

Em 20 de agosto de 1914, o Bem--aventurado Tiago Alberione inicia a Família Paulina, com a fundação da Pia Sociedade de São Paulo (Padres e Irmãos Paulinos), seguida,

em 1915, pela fundação da Pia Sociedade Filhas de São Paulo (Paulinas), ambas as congregações com a missão exclusiva de evangelizar na cultura da comunicação. 

Ao lado delas, surgem os primeiros Cooperadores Paulinos (1917).

Em 1924, nascem as Pias Discípulas do Divino Mestre, para o apostolado eucarístico, sacerdotal e litúrgico.

 Em 1938, funda as Irmãs de Jesus Bom Pastor (Pastorinhas), destinadas ao apostolado pastoral nas paróquias, ao lado dos párocos.

Com a fundação, em 1959, das Irmãs Apostolinas, dedicadas ao apostolado vocacional, completa-se a grande árvore da Família Paulina, do ponto de vista das congregações religiosas.

Juntam-se ainda quatro institutos seculares:

o Instituto Jesus Sacerdote, para o clero diocesano que deseja compartilhar mais estreitamente o ideal paulino,

os Institutos São Gabriel Arcanjo (Gabrielinos) e Maria Santíssima Anunciada (Anunciatinas), para homens e mulheres que se consagram no mundo, e, por fim,

o Instituto Santa Família, para casais que desejam viver os conselhos evangélicos no próprio estado de vida. 

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

ALBERIONE, Giacomo. Abundantes divitiae gratie suae: storia carismatica della Famiglia Paolina (AD). Roma: San Paolo, 1998. ______; 

COLACRAI, Angelo (Org.). Vademecum: selezione di brani sulle linee qualificanti del suo carisma (VM). 

Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1992. vidapastoral.com.br • ano 62 • no 342BENTO XVI, Papa. Mensagem para o 45º Dia Mundial das Comunicações Sociais: Verdade, anúncio e autenticidade de vida, na era digital, 5 jun. 2011. Disponível em: <https://www. vatican.va/content/benedict-xvi/pt/messages/communications/documents/hf_ben-xvi_mes_20110124_45th-world-communications-day.html>. Acesso em: 7 jun. 2021. 

ESPOSITO, Rosario F. (Org.). La primavera paolina: L’Unione Cooperatori Buona Stampa dal 1918 al 1927. Roma: San Paolo, 1983. 

FRANCISCO, Papa. Mensagem para o 50º Dia Mundial das Comunicações Sociais: Comunicação e misericórdia: um encontro fecundo.

 

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