(D. Valdir J. de Castro)
EM CRISTO E NA IGREJA,
PARA CHEGAR A TODOS
Pode-se, perguntar: deve-se chegar especificamente a quem com o apostolado da comunicação?
O objetivo da evangelização com a comunicação é chegar a
todos, porém considerando a humanidade na situação concreta em que vive.
Olhando para a realidade do seu tempo, Pe. Alberione
afirmava: “É precisamente neste século que devemos viver e agir. Devemos ser
deste século, ou “A EVANGELIZAÇÃO COM A COMUNICAÇÃO, NO PROJETO IDEALIZADO POR
PE. ALBERIONE, ENCONTRA SUA INSPIRAÇÃO PRIMEIRA NO APÓSTOLO PAULO.” seja:
tentar entender as necessidades e atendê-las”. E constatava: “Isso é fácil,
pois Deus nos deu temperamento, costumes em relação ao nosso tempo, e não aos
tempos passados” (VM 375).
É preciso chegar a todos com o Evangelho, com especial
predileção pelos mais necessitados, ajudando-os a conquistar não somente o pão
material, mas também o pão da instrução e da verdade. Para isso, insistia Pe.
Alberione, é preciso utilizar uma linguagem “pastoral”, termo que, para ele,
significava justamente “a grande arte de dar Deus às pessoas e de dar as
pessoas a Deus em Jesus Cristo” (VM 1205).
É necessário, então, usar de criatividade, produzir conteúdos
compreensíveis e acessíveis, com linguagens adequadas às crianças, aos
jovens e adultos.
Outro segmento da sociedade considerado prioritário na mente
de Pe. Alberione era o dos intelectuais. Ele era convicto de que, se queremos
uma sociedade melhor, com uma “mentalidade nova”, é necessário levar o
Evangelho aos intelectuais e aos que formam opinião com os meios de
comunicação. “Se conquistar intelectuais, você pesca com a rede, não apenas com
o anzol”, dizia o fundador da Família Paulina (VM 1329).
Ele via na comunicação
instrumental um canal imprescindível para criar relações e gerar diálogo com
aqueles com responsabilidade na formação da consciência das pessoas, pois são
eles que influenciarão as decisões às vezes fundamentais para o destino de uma
comunidade, de um povo e até mesmo de um país.
OS DESAFIOS DA
COMUNICAÇÃO HOJE
Desde que Pe. Alberione deixou este mundo, a comunicação tem
passado por profundas transformações – especialmente com a chegada das técnicas
digitais –, assim como a Igreja, que, nas últimas décadas, tem procurado
atualizar seu discurso e renovar sua prática, no que se refere a esse campo de
evangelização.
Certamente, Pe. Alberione não imaginava a revolução que
ocorreria no campo das técnicas comunicacionais, tampouco na realidade da
comunicação como a vemos hoje configurada. Mas, estaria aberto às mudanças ocorridas nesse
âmbito, como podemos deduzir das suas palavras, quando afirma: “O mundo
compreender-nos-á se utilizarmos os meios atuais para nos comunicarmos com ele.
Portanto, não pense em dizer: ‘sempre fizemos isso’. Ao longo dos anos,
precisamos nos adaptar às condições da época em que vivemos” (VM 347).
A atualidade de Pe.
Alberione, a qual nos interpela como Igreja, reside na sua capacidade de estar
atento às mudanças que a comunicação, mediada pela técnica, provoca na
sociedade e, consequentemente, de buscar respostas concretas ao que se refere à
ação evangelizadora. O empenho em adaptar a evangelização às condições da época
em que vivia leva-nos a refletir sobre a atual realidade da comunicação e
responder aos desafios que ela impõe.
A provocação a adaptar a Igreja à realidade da comunicação
nos leva a considerar ao menos dois aspectos, entre muitos outros, que estão
interligados e não podem ser ignorados, nos dias atuais, quando o tema é a
evangelização: a compreensão da comunicação como “cultura” e a realidade do
ambiente digital.
A
comunicação como “cultura”
Antes de tudo, é
preciso compreender a comunicação, mediada pela técnica, não somente como um
conjunto de instrumentos que propagam informações e conteúdos, mas também como
parte integrante de uma cultura que interfere diretamente na vida das pessoas.
Essa visão de comunicação já era presente, quando,
referindo-se ao uso dos instrumentos técnicos na evangelização, advertia que
não é suficiente usá-los para difundir a mensagem cristã e o magistério da
Igreja, mas é necessário integrar a mensagem nesta “nova cultura”, criada pelas
modernas comunicações. É um problema complexo, pois esta cultura nasce menos
dos conteúdos do que do próprio fato de existirem novos modos de comunicar com
novas linguagens, novas técnicas, novas atitudes psicológicas (RM 37).
A visão da comunicação como “cultura” é fundamental quando
pensamos na evangelização. O Concílio Vaticano II já havia debatido sobre o
perigo de criar distância entre cultura e Evangelho.
De fato, parar no
tempo ou romper o diálogo com a cultura sempre foram grandes tentações para a
Igreja, como reconheceu o papa São Paulo VI, o que o levou a afirmar que “a
ruptura entre Evangelho e cultura é, sem dúvida, o drama de nossa época, como o
foi de outras” (EN 20).
O perigo da fossilização, mantendo-se em esquemas pastorais
antigos, que separam a Igreja da cultura e, consequentemente, distanciam a
mensagem do Evangelho das pessoas, é advertência constante também do papa
Francisco. Daí o motivo de ele insistir na necessidade de a Igreja entrar na
dinâmica de uma pastoral em chave missionária, que rompa com a
autorreferencialidade.
Insiste sobre a urgência de a Igreja abandonar o critério
pastoral do “fez-se sempre assim” e sobre a necessidade de assumir uma pastoral
ousada e criativa na tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e
os métodos evangelizadores das comunidades (EG 33). Obviamente, “se pretendemos
colocar tudo em chave missionária, isso se aplica também à maneira de comunicar
a mensagem” (EG 34). 5.2.
O ambiente
digital
Uma evangelização que deseje levar em conta os tempos atuais
não pode prescindir do ambiente digital. Não se trata apenas de “usar” a
internet, como se fosse mero instrumento de comunicação, mas sobretudo de viver
na cultura digitalizada que influencia fortemente a noção de tempo e espaço, a
forma de as pessoas se relacionarem entre si e com o mundo, a maneira de
aprender, de informar-se, de manifestar-se politicamente, de consumir, de rezar
etc.
O ambiente digital faz-nos ver que a forma linear de
transmissão do anúncio do Evangelho – própria dos instrumentos de comunicação
tradicionais, como a imprensa, o rádio, a televisão etc. – está passando por
profunda “crise”; isto é, a comunicação hierárquica, que transmite a mensagem a
partir de um centro para uma periferia, vai sendo substituída sempre mais, com
o avanço das redes, por uma comunicação
interativa e participativa.
Já não se trata simplesmente de “usar instrumentos”, mas de
“habitar” um ambiente onde bilhões de pessoas circulam diariamente. O espaço
digital torna-se imprescindível para a evangelização; nele somos chamados, como
Igreja, não só a oferecer conteúdos religiosos ou mensagens com valores
cristãos, mas também a dar testemunho com base em um estilo cristão de
comportamento. É nessa linha que se insere o papa Bento XVI quando admite que
“existe um estilo cristão de presença também no mundo digital que se traduz
numa forma de comunicação honesta e aberta, responsável e respeitadora do
outro” (BENTO XVI, 2011).
Nestes tempos de comunicação em rede, é imprescindível ter
presente, como afirma o papa Francisco, que “não é a tecnologia que determina
se a comunicação é autêntica ou não, mas o coração do homem e sua capacidade de
fazer bom uso dos meios ao seu dispor” (FRANCISCO, 2016).
É verdade que o mundo
digital pode favorecer as relações e promover o bem da sociedade, mas, como já
manifestou tantas vezes Francisco, não pode obviamente substituir a presença
física e o contato direto, tão importantes nas relações humanas e na vida das
comunidades.
Um justo equilíbrio é indispensável. Enfim, a evangelização
no campo da comunicação não se reduz a utilizar os instrumentos técnicos
(analógicos ou digitais) ou simplesmente a habitar o ambiente digital, mas
envolve favorecer, com esses recursos, a comunicação mesma, que, no seu sentido
mais profundo, deve gerar proximidade, partilha, escuta, acolhimento, ajuda
mútua; estimular a verdade, motivar atitudes e comportamentos genuinamente
evangélicos.
CONCLUSÃO
Certamente, como buscamos mostrar nesta reflexão, a melhor
forma de fazer memória do Bem-aventurado Tiago Alberione, neste ano em que
celebramos o cinquentenário de sua partida para junto de Deus, é trazer para a
atualidade seu pensamento e exemplo de vida, de modo particular suas intuições
e sua contribuição para a evangelização no campo da comunicação. Segundo Pe.
Alberione, não basta o púlpito tradicional para evangelizar, ainda que este
seja carregado de significado e importância. Já na primeira metade do século
XX, o fundador da Família Paulina estava convencido da necessidade de assumir a
realidade da comunicação e dos recursos técnicos ligados a esse campo, ou seja,
de utilizar os “púlpitos modernos”, ao lado da comunicação no templo; todavia,
não como simples instrumentos de amplificação da mensagem, mas como forma
concreta de “encarnar” o Evangelho na cultura atual, por intermédio das
linguagens escrita, sonora e imagética.
Esse era o grande sonho de Pe. Alberione, o qual, por meio da
Família Paulina, buscou concretizar. Um projeto que nasceu, porém, não do
simples esforço pessoal. Como ele mesmo diria, tudo foi fruto – não obstante
suas limitações – da comunhão com Deus, a qual o levou a caminhar com a Igreja
e com a sociedade do seu tempo, a deixar-se iluminar pela Eucaristia, a “pensar
e nutrir--se de cada frase do Evangelho, segundo o espírito de São Paulo” (AD
95).
Na sua relação com Jesus – o qual ensinou seus filhos e
filhas espirituais a invocar como “Mestre, Caminho, Verdade e Vida” –, na
devoção a Maria Rainha dos Apóstolos e na inspiração apostólica em São Paulo,
ele encontrou luzes e fundamentos para sua santificação.
De fato, sua beatificação, em 2003, por São João Paulo II,
foi eloquente sinal do reconhecimento da Igreja de que é possível
santificar-se, dedicando-se à evangelização no campo da comunicação moderna.
Nesse sentido, o Bem-aventurado Tiago Alberione é um santo para nossos dias,
uma referência de santidade, não somente para os membros da Família Paulina,
mas também para todos os que acreditam na força transformadora da comunicação e
se dedicam, na Igreja, a essa fascinante e desafiadora pastoral.
A FAMÍLIA PAULINA
Em 20 de agosto de 1914, o Bem--aventurado Tiago Alberione inicia
a Família Paulina, com a fundação da Pia Sociedade de São Paulo (Padres e
Irmãos Paulinos), seguida,
em 1915, pela fundação da Pia Sociedade Filhas de São Paulo
(Paulinas), ambas as congregações com a missão exclusiva de evangelizar na
cultura da comunicação.
Ao lado delas, surgem os primeiros Cooperadores Paulinos
(1917).
Em 1924, nascem as Pias Discípulas do Divino Mestre, para o
apostolado eucarístico, sacerdotal e litúrgico.
Em 1938, funda as
Irmãs de Jesus Bom Pastor (Pastorinhas), destinadas ao apostolado pastoral nas
paróquias, ao lado dos párocos.
Com a fundação, em 1959, das Irmãs Apostolinas, dedicadas ao
apostolado vocacional, completa-se a grande árvore da Família Paulina, do ponto
de vista das congregações religiosas.
Juntam-se ainda quatro institutos seculares:
o Instituto Jesus Sacerdote, para o clero diocesano que
deseja compartilhar mais estreitamente o ideal paulino,
os Institutos São Gabriel Arcanjo (Gabrielinos) e Maria
Santíssima Anunciada (Anunciatinas), para homens e mulheres que se consagram no
mundo, e, por fim,
o Instituto Santa Família, para casais que desejam viver os conselhos evangélicos no próprio estado de vida.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALBERIONE, Giacomo. Abundantes divitiae gratie suae: storia carismatica della Famiglia Paolina (AD). Roma: San Paolo, 1998. ______;
COLACRAI, Angelo (Org.). Vademecum: selezione di brani sulle linee qualificanti del suo carisma (VM).
Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1992. vidapastoral.com.br • ano 62 • no 342BENTO XVI, Papa. Mensagem para o 45º Dia Mundial das Comunicações Sociais: Verdade, anúncio e autenticidade de vida, na era digital, 5 jun. 2011. Disponível em: <https://www. vatican.va/content/benedict-xvi/pt/messages/communications/documents/hf_ben-xvi_mes_20110124_45th-world-communications-day.html>. Acesso em: 7 jun. 2021.
ESPOSITO, Rosario F. (Org.). La primavera paolina: L’Unione Cooperatori Buona Stampa dal 1918 al 1927. Roma: San Paolo, 1983.
FRANCISCO, Papa. Mensagem para o 50º Dia Mundial das Comunicações Sociais: Comunicação
e misericórdia: um encontro fecundo.

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