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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

É VERDADE QUE O “HOMEM DIGITAL” É POUCO ATENTO AO ESPÍRITO?



Internet não é como uma rede de água ou de gás. Não é um conjunto de cabos, fios, tablets, celulares e computadores. É um erro identificar a realidade e a experiência da Internet com a infraestrutura tecnológica que a torna possível. 

A Rede hoje é - sobretudo mobilidade - um contexto existencial no qual se entra em contato com os amigos que moram longe, informa-se, compra-se coisas, compartilha-se interesses e ideias: é um tecido conectivo de experiências humanas. 

Um de meus estudantes africanos, na Universidade Gregoriana, uma vez me disse: “Eu amo meu computador porque dentro dele estão todos os meus amigos”. 

As tecnologias da comunicação estão, portanto, contribuindo para definir também um modo de habitar o mundo e de organizá-lo, orientando e inspirando os comportamentos individuais, familiares e sociais. 


Bento XVI escreveu: “O ambiente digital não é um mundo paralelo ou puramente virtual, mas faz parte da realidade cotidiana de muitas pessoas, especialmente das mais jovens”. 

Além disso, a Gaudium et Spes já tinha falado de um preciso impacto da tecnologia no modus cogitandi do homem. Em geral, as “invenções técnicas” são relevantes porque “dizem respeito ao espírito do homem” (Inter Mirifica). 
Em seu discurso de 1964, São Paulo VI reiterou que “o cérebro mecânico vem em auxílio do cérebro espiritual”. O homem tecnológico é, portanto, o mesmo homem espiritual. A cultura do ciberespaço coloca novos desafios à nossa capacidade de formular e escutar uma linguagem simbólica que fala da possibilidade e dos sinais da transcendência na nossa vida. A nossa vida 
vive também no ambiente digital. 

Portanto, também nossa vida de fé já o é. Quais são os principais desafios que enfrentamos e enfrentaremos à luz destas considerações? Entre os numerosos possíveis desafios se podem individuar, em minha opinião, pelo menos dois fundamentais.


Primeiro desafio

Está certamente ligado ao fato de que o ambiente digital hoje tem a natureza de uma rede social: emergem as relações. 

Se em nosso cérebro os neurônios estão conectados, na Internet, nossos cérebros, nossas habilidades culturais, espirituais e relacionais, estão conectados. 

Comunicar, portanto, não significa mais transmitir um conteúdo, mas compartilhá-lo. Aqui, então, aparece uma pergunta que poderíamos dizer radical: basta multiplicar as conexões para desenvolver a compreensão recíproca entre as pessoas e as relações de comunhão? Estar conectado não significa automaticamente estar em relação. 

A community não é automaticamente comunidade. A conexão por si só não basta para tornar a Internet um lugar de compartilhamento plenamente  humano, porque a comunhão não é um “produto” da comunicação.

A Igreja, no ambiente digital, é chamada, portanto não a uma “transmissão” de conteúdos religiosos, mas a uma “partilha” do Evangelho numa sociedade complexa onde a compreensão da realidade é comprometida pelas notícias falsas (fake news), pela manipulação, pelo domínio do consenso. 

No entanto, emerge da própria Rede a necessidade de maior participação: cada um pode se expressar. Se isto é verdadeiro na dimensão política e civil, não o é menos na eclesial. É fundamental que ela não seja gerida pela lógica do algoritmo.

Segundo desafio

Consiste na capacidade de compreender  aquilo que uma vez se chamava – e com razão -  “vida interior”. 

A vida espiritual do homem contemporâneo é certamente tocada pelo mundo no qual as pessoas descobrem e vivem as dinâmicas próprias da Rede, que são interativas e imersivas. Quem tem certo hábito na experiência da Internet, de fato, parece mais pronto à interação que à interiorização. 

Geralmente “interioridade” é sinônimo de profundidade, enquanto “interatividade” frequentemente é sinônimo de superficialidade. Algum tempo atrás, Alessandro Baricco fez um elenco, colocando a superfície no lugar da profundidade, a velocidade no lugar da reflexão, as sequências no lugar da análise, o surf no lugar do aprofundamento, a comunicação no lugar da expressão, a multitarefa no lugar da especialização. 

Seremos condenados, então, à superficialidade? É possível combinar profundidade e interatividade? 
Quem está habituado à interatividade, interioriza as experiências se for capaz de tecer, com essas, uma relação viva e não puramente passiva, receptiva. O homem de hoje considera válidas as experiências que requerem sua “participação” e o seu envolvimento. 

O desafio é enorme. Qual será então a espiritualidade daquelas pessoas cujo modus cogitandi está em fase de “mutação” por habitarem no ambiente digital? Este é também um dos principais desafios educativos de nossos dias.

Antonio Spadaro, sj 
Fonte: Avvenire

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Entrevista: Pe. Spadaro e a presença da Igreja nas redes sociais

No dia 12 de dezembro de 2012, o Papa Bento XVI abria a conta twitter @Pontifex, um gesto também de reconhecimento e atenção pelas redes sociais como local de partilha de fé. A conta, com os tweets em nove línguas - superou nestes dias os 25 milhões de seguidores. Sobre a importância da presença do Papa nas redes sociais e sobre o papel que podem ter neste Ano Santo da Misericórdia, a Rádio Vaticano entrevistou o Padre Antonio Spadaro, Diretor da Civiltà Cattolica, que recentemente lançou o livro "Quando a fé se faz social":

"A primeira reflexão é que o Papa Francisco é um Papa "tátil", um Papa físico, que ama fazer carinho, que ama abraçar. De uma maneira ou de outra, justamente esta dimensão física do Papa evoca um amplo compartilhamento digital. Não existe, portanto, uma fratura entre o físico e o digital. Precisamente a sua atenção por cada pessoa, ao humano, à gestualidade, pede e estimula uma partilha digital".

RV: 25 milhões de seguidores - que crescem sempre mais - um número realmente consistente, também por alguns aspectos extraordinários, de retweet, que nos falam também de uma capacidade de inserção em um mundo que poderia ser, num primeiro momento, não considerado como afim, como o da Igreja....

"Na realidade, existe uma grande necessidade de sabedoria, existe uma grande necessidade de reflexão, e a reflexão hoje deve ser necessariamente pontual, isto é, pequena, breve, mas capaz de entrar no profundo! E às vezes basta o espaço de um tweet, de um tweet bem escrito, e o Papa fala no geral por frases bastante breves e diretas. O espaço, portanto, de um tweet, resulta não somente suficiente, mas também apropriado, para ajudar as pessoas, dentro de uma vida frenética, a refletir, a pensar. O Papa é capaz de discursos também extremamente amplos e complexos. Basta olhar, ler, as coisas que escreveu precedentemente, antes de se tornar Pontífice, até mesmo antes de ser Arcebispo. Na realidade, porém, percebeu que a sabedoria do Evangelho passa através das mensagens simples e mensagens breves, isto é, capazes de estimular uma reflexão pontual, como dizia antes. Portanto, estes retweet tocam muito. Certamente 25 milhões de seguidores são um número muito grande, que impressiona. Mas o dado que deveria fazer refletir mais é a vontade de compartilhar as palavras do Papa. E nisto - devo dizer - é um líder mundial, isto é, as coisas que o Papa diz são retransmitidas, são portanto compartilhadas dentro das redes sociais, que depois, são normalmente redes de amizade. E não somente as palavras do Papa. Vemos que existe um grande compartilhamento das imagens, portanto, dos gestos que o Papa realiza. Este mundo de compartilhamento digital entrou poderosamente dentro da Igreja e tem um significado muito bonito".

RV: Justamente há 20 anos, por vontade de São João Paulo II, nascia o Vatican.va, e o Vaticano, assim, entrava na Internet, mesmo antes de muitas instituições italianas. Agora estamos, precisamente, aprofundando uma reflexão sobre o Twitter, e portanto, sobre Bento XVI e o Papa Francisco. O que os fieis podem aprender desta coragem profética dos Papas em relação às novas tecnologias?

"Certamente uma reflexão a ser feita diz respeito ao motivo pelo qual a Igreja está na rede. A missão da Igreja, a vocação mesma, se quisermos, da Igreja é a de estar onde as pessoas estão. E hoje as pessoas estão também em rede. Portanto, a Igreja deve, por missão, estar na rede. Esta é a reflexão que, me parece, seja a mais interessante: ser, isto é, encarnados. Se é encarnado também entrando na rede, porque a rede não é um lugar frio, tecnológico, álgido, como alguns imaginam, feito de cabos, computador e máquinas. Não, na realidade é um lugar muito acolhedor, onde as pessoas hoje exprimem necessidades, anseios também de caráter religioso".

RV: Uma de suas últimas publicações tem por título "Quando a fé se faz social". Este Jubileu da Misericórdia é também o primeiro Ano Santo na era das redes sociais. O que elas podem dar, qual contribuição podem oferecer a esta experiência do Jubileu da Misericórdia?

"O desafio, hoje, neste Jubileu em particular, não é o de usar a rede para difundir uma mensagem como se fosse de alguma forma um instrumento. A rede não é um instrumento: é um ambiente, um ambiente de vida, onde se partilha a própria experiência! Assim, o que me parece importante neste Jubileu, por exemplo, é compartilhar experiência de misericórdia, compartilhar a palavra chave na rede. É certo, a fé se faz social, se faz social porque é capaz de dar um testemunho, de produzir um testemunho, e hoje um testemunho se compartilha e se compartilha também no social.

(Fonte> Rádio Vaticano)